sábado, maio 22, 2021

Zé encantou-se

Um arco-íris cruzou
O céu aqui dessa mata
Pensei logo que era Zé
De maneira imediata
Em cortejo avoador
Em rastro de luz e cor
Pela paisagem de prata

Nesse metal de chuvisco
Um apito ressoava
No barbatuque dos raios
Que o tempo preparava
Pra receber o brincante
Que em seu vôo galante
Galopante se chegava

"Um capitão de verdade"
Disse outro mestre daqui
Subia tão alinhado
Dessa maneira que vi
Se brilho, fita ou bordado?
Transparecia um dourado...
Despido dessa matéria
Luzindo a beleza etéria
De um colorido encantado

A chuva comunicou
Quem em cortejo passava
Havia festa no céu
O Sol a chuva encontrava
Cá as raposas se uniam
Viúvas se despediam
Da viuvez pr'outo estado
A morte virava vida
E a ave renascida
Cantava já d'outro lado



















quinta-feira, novembro 14, 2019

No caminho do mar tinha flor e cura

Mote de Tonfil

Inquietante pensar
Que o desamor possa haver
Que mal se possa fazer
Que a vida possam roubar
A beleza violar
Mudando o rumo da estrada
Essências violentadas
Perguntamos até quando
Eu vi as plantas velando
Mil flores despetaladas

Sob leis eclesiais
Hipocrisia imperante
Alguns direitos vitais
Tomaram tom dissonante
O proscrito e o errante
Voz que quiseram calada
Sabedoria queimada
Em fogo se transformando
E a natureza velando
Mil flores despetaladas 

Mil flores despetaladas
Estrada e terra que voa
Espinhadeira corroa
Na Crística caminhada
Porém a nossa pisada
Tem passo forte de estado
Caminho abençoado
Pela mãe compadecida
Que gera, cuida e dá vida
Ao que outrora foi velado.

A força do feminino
Nos encoraja na fé
A graça de ser mulher
E entoar nosso hino
Um encanto peregrino
Entorna a face cansada
Sabedoria sagrada
De uma verdade se dando
Mil flores desabrochando 
Na consciência da jornada

Nasceu de mim dois mistérios
Duas riquezas carnais
Brisas espirituais
Desceram dos céus etérios
Pensamentos deletérios
Já não sustentam morada
Abranda a dor esgarçada
Em parto pleno se dando
Pedra e mar desaportando
Dessa flor desabrochada

Um mareio encarnado
Veio esgarçando a fresta
Serena sua seresta
Sereno o seu estado
Sereias em seu legado
Um rio virando mar
Um uivo soa lunar
Na voz de todos os santos
Mil bruxas saúdam o encanto
De seu retorno para cá





segunda-feira, setembro 30, 2019

Fluxo d'água corrente

Na foz do meu peito preso

Mora um grito excluído

Silencioso estampido

Calado parece ileso

De animal indefeso

Deu-se em fera encarcerada

Sob a lua enevoada

Sonha a ancestral serpente

Fluxo d'água corrente

Correnteza em retomada


Dou um grito de terror

Sofrendo a dor de outrxs tantos

Ouço os tambores dos Bantus

Aos ancestrais dou louvor

Encontro em mim o sabor

Que havia esquecido

Do genipapo moido

Uma memória que sente

Fluxo d'água corrente 

Sob o veio ressequido


Queria encontrar alento

Em um colo ancestral

Uma força natural

Novamente achar intento

Mas parece que o momento

Me Impele à solitude

Sigo o som de um alaúde

Que guia em tom diferente 

Tento ser resiliente

Achar no nada a virtude


Um rio reinventado

Passeia no meu trilhar

Círculo o mesmo lugar

Entre pedras o meu nado

Podia ser meu agrado

Lagoa sem movimento

Em cada peixe um lamento

Como se fosse pra gente

Fluxo d'água corrente

No despertar do momento





sexta-feira, agosto 09, 2019

ela

Na tarde que ela chegou
Estampiu-se ela de mim
Feito uma filha real
Uma outra a banhou
A trouxeram embrulhada
Silenciosa buscou-me
No sentido do seio
Estive acabada

Fui cortada ao meio

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

Omar

Omar desceu girando do cosmo
Se esparramou entre as frutas da Ceasa
Com as marés nos olhos nos espumou como as bebidas curtidas
Sábio de antigos desertos
De certo um imã, um irmão
No nome o som da criação criança, da graça
Os lábios do doce das tâmaras místicas alucinadas do Saara
Canção de oásis seu peito
Solto entre as palmeiras que abanam o tempo
Pés nas alpargatas, nas areias, nas estrelas, nos passos, nos Caminhos, no claustro, nos abismos, na amplitude, no vôo

Gemido arabesco de pássaro

Omar retorna conosco, somos gratos
Honrados com a sua majestade simples
Dou-te o veludo do meu leite e colo trigueiro
Te aninha em mim, ave santa
És, junto á Esmeralda, o tesouro antigo
Que entre mistérios minou
Gemas sementes tomadas pelo sopro
Dois milagres

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Casa

Faltam as palavras
no espelho distante
Cintila a louça do frágil
Cavalga a força solta
com a cria pelo mato
Na busca de chão
os ladrilhos resistentes e belos
Existe um elo apagado
Um pulso ancorado
Um grito embotado
Na minha casa brotou uma mata
Os espíritos de ferrão defendem a ruína
Por toda parte há estilhaço
Como se a casa estivesse nas entranhas
me habita uma borboleta de madeira com cheiro de chuva
Ouço dentro o som da panela que ampara essa goteira antiga
Ouço a louça frágil
Como uma guerra que findou
sem socorro
Com os olhos secos
A vista traga mormaço
O vento cisca as telhas
Esfrego as janelas
Casa assim é palavra difícil

Mata

Na minha casa cresceu uma mata
Enxames guardiões e aves
Venho pra essa casa
Mergulho sua essência
No quarto das armas Omar dorme
Busco me desarmar
Bosque de abundância
Medro entrar

terça-feira, junho 20, 2017

Houve um tempo

Ô linda, verde
Louvando a deus
A Mônica zen
O anjo da guarda
A luz entrando
[Pelos portais
Árvore roxa
Caminho do açudim
Vital, Veneza, Grossos
Os reis magos
Lapinha improvisada
O Tapete patch Work
Elefantes, cavalos, jacarés
Circo carro céu
Tucano da almofada
A mente cheia de estórias
Minha vida cinema casa
As madrugadas de terror
Amor cor som emoções
Carros no salão grande
Encontro os arabescos
As janelas e as paredes grossas
Teatro corpo grupal
Liberdade de sentir
Abrir as torneiras
O fim é o começo
Tranças chapéus
Quadriculando fogo
Houve um tempo
Em que era moça
Com cauda de peixe
Tinha estrelas azuis... e presentes
Houve um tempo que revivi
Antigos caboclos
De lanças, plumas e brilhos
Com os pés amarelos
No chão vermelho
E madeira negra
De cipó pendurado
Esse tempo preto

quinta-feira, maio 25, 2017

No tempo das ancestrais

No tempo das ancestrais
Esteios, raízes, sonhos
Flores, folhagens, banhos
Contos, cantos divinais

No tempo das ancestrais
Mosquiteiros e descansos
Patos galinhas e gansos
Terreiros, sítios,  quintais

No tempo das ancestrais
Rezas, enfeites, anáguas
Rosas, ervas, bentas águas
Sincréticos rituais

Explanações cambiais
Sapiencias e saberes
Profecias e dizeres
Considerações, portais

No tempo das ancestrais
Curandeiras, benzedeiros
Boticários viajeiros
Frascos, perfumes astrais

No tempo das ancestrais
Goteiras em caçarolas
Recados e camisolas
Pecados originais

No tempo das ancestrais
Segredos, arcas, baús
Casas grandes, urubus
Amor de primos carnais

No tempo das ancestrais
Coisas de couro, couraças
Jabutis e carapaças
Jugos, preceitos morais

No tempo das ancestrais
Abanos de palha, esteiras
Gentes vendidas nas feiras
Poderes podres demais

No tempo das ancestrais
Tostões, cruzeiros, reais
Ouro, prata, vis metais
Castas, classes sociais

No tempo das ancestrais
Cruzadas e castidades
Hipocrisia,  maldade
Fogueiras eclesiais

No tempo das ancestrais
Caminhos longos, assombros
Desconstruções e escombros
Peregrinações gerais

No tempo das ancestrais
Alma, espírito,  lamento
Um despertar lamacento
Em regiões abissais

No tempo das ancestrais
Corpos, danças condoídas
Relatos de morte vida
Estórias de animais

No tempo das ancestrais
Algodão, linho e chita
Fazenda, linha e fita
Costura que se resfaz

No tempo das ancestrais
Luas, sóis, ciclos, janeiros
Ventos fortes e maneiros
Renascimentos, finais

domingo, janeiro 01, 2017

Salmo silvo

Quero um salmo
Que saia da minha boca fluidamente
Sem cerimónias e com muito som
Quero um salmo
Salmo que se expanda
Não se repreenda
Silvo de floresta
De capela e festa
De canção seresta
Quero que esse salmo me salve
Sem explicação
Que seja santo, salmo canto
Pranto alegre planto
Raiz nutrição
Salmo ameríndio
Simples comunhão
Salmo sorrateiro
Que se chega inteiro
Cor de cor ação
Salmo que me abrace
E a tudo enlace
Cheio em compaixão
Salmo que me cante
Que a tudo encante
Tempo inspiração
Não precisa rima 
Rica nem ser fina
Pode ser brejeira
Pó de capoeira
Mas vir verdadeira
Feito essa menina...
Quero esse salmo
Esse é meu segredo
Digo ao arvoredo
Esse simples salmo
Meu salmo de silvo

quarta-feira, agosto 20, 2014

Encontrada


média três kilos já tem
a menina grande
sem circulares

tem perfil na foto
uma sombra feita
na barriga dura

um fêmur de 7 e meio
que dispensa medições
a menina grande
dentro dos padrões

água ainda tem bastante
placenta quase madura
acenando pronto instante
rica de graça e candura

uma cabeça pendida
pela gravidade conduzida
e um corpo que se espreme
no corredor da barriga

e a menina apronta
coração presente
corajosamente
a sua saída

a sua chegada

e a menina aprontada
já não se adianta

mas já se encontra
de pronto encontrada

sexta-feira, agosto 01, 2014

leite

leite é coisa tão boa que nem sendo um leite assim de caixa fica ruim, nem sem lactose, nem em pó...
leite tem o gosto do primeiro gozo, primeiro contato, gosto de mãe.

mãe é coisa tão boa que mesmo sem lactose, sem leite e sem peito.

segunda-feira, julho 14, 2014

III

Se o ciúme (novamente) é uma sombra clara
A insegurança sopra e se apodera
Sobra o assombro, e assim podera
Transformar a lombra numa flora rara
Se entre forma e máscara infinita e cara
Se entre um verso sinto e me calo outra
Fingindo o sons que me completam louca
Boca dissonância meu zumbido enterra
E desterrada, a vocalize erra
Nas incertezas das distâncias roucas.

Quem mais de musa que teu olho segue
Quem mais de verde o teu sentir ressoa
Se de reinado não temos corôa
Se de sedentos somos tuaregues
Somos relento, chuva que nos regue
Embriagados de nossos umbigos
Ambos tocando a toca do inimigo
Atrás de portas, chaves e espelhos
De ostras, mares, cartas e coelhos
Achamos cria que rogava abrigo.

Não quero um homem, infeliz, escuro
Atado e sério, cheio de segredos
Quero o mistério de abraçar os medos
Solver me água de infiltrar os muros
Sorver o sumo suculento e puro
Na madurez da terra embevecida
Na acidez da flora enrijecida
E saciar-me plena de inteireza
Em religare de intensa reza
Alma alagada, pele comovida.

És o orvalho que me desposou
Sou flor que dizes ser de Aldebarã
Nos encontramos e nasceu manhã
Pássaro raro que em mim pousou
És o valente que enfim ousou
Atravessar muralhas de espinhos
Nos encontramos entre a voz e o pinho
E o silêncio cio se atravessou
Já não importa mais se és ou sou
Só o que soma e que nos faz caminho.

Tantas passagens da existência adentro
Tantos encontros em diversas formas
Aberto o tempo, alegoria e norma
Casa, cuidado, coração, coentro
O nosso encontro nos veio pôr centro
Estou ciente que estamos certos
Em receber um ser tão mais esperto
Que ainda chega e tanto já ensina
Unindo opostos n’água feminina
Nos acordando à sonhar despertos.

sábado, julho 27, 2013

gelos secos

como tem andado olga
pra onde vai a máscara neutra de cada dia
de que serve a verve
água de chocalho
calhou de alga
anaíra no processo
nua na neutra família
só na arma da armadilha
lembra odília
é babá de crianças na rua do lado
se engraça da matéria da vida no luto da trasfomação sutil
marina no gol do impulso
aninha na filosofia filha
luciana mãe redescobrindo a arte em si
germano na mesma flor do espiral
todos no mesmo barco
aparente, diferenças
um fio liga a massa
uma teia de viola
lívida vida
cláudio na graça peleja
no abraço de dora
nos olhos de leo
rafael no espelho da cama
rio do espelho do ventre
e fim do curso na educação
professa a profissão
caminhos na subsistência
no par
no casal
no funil
no alambique do panteísmo
o adulto bate na porta
parece um demônio pedindo pra ser encarado
dizendo coragem com os olhos
parece minerva séria
com uma coruja grande no ombro
pronta a te engolir os olhos
e o tempo é de enfrentamento
e olhos secos

domingo, julho 07, 2013

clenice-wood


(à mainha)

Toda a graça, legastes
O exemplo e a quimera
Força-luz que reverbera
Sentido têxtil da haste

Bandeira que encaminhastes
Fincada no chão que gera
Entre sol e primavera
Fostes encontro, e gerastes

És potente na cadência
Humana, flor de essência
Companheira que anima

Copa grata florescida
Mais que isso, agradecida
Parceira de canto e rima

thiago

menino de caruaru
que brincava de telejornal
que virava as cadeiras de balanço
que brincava comigo

menino de são joão
de rosário, de xangô
menino thiago mouro


menino thiago terno
da revolução riscada no quarto
da devolução do livro na biblioteca da faculdade
da disciplina de estudar só

tio thiago, thiago tio de sofia
namorado do namorado, da filosofia
amigo do ex, amigo do que não foi

sem barreira. thiago antigo
amigo que deita e cose
cozinha santa de calcanhar


domingo, maio 05, 2013

soneto solto pra irmã Natascha que foi morar no Rio de Janeiro


Ela foi, mas deixou um sentimento
e um cheiro de chavo e canela,
Ciganinha vermelha e amarela
Água doce de um rio em movimento

quando lembro de ti, o sofrimento
se transforma em amor e confiança,
se refaz e sorri feito criança,
que abundante deixastes alimento

és irmã, e feliz eu sou em tê-la,
pois o espelho transborda e revela
na verdade amorosa do olhar

se estás longe, estás perto, sempre estás...
tens a força das curas ancestrais
dos encontros do rio com o mar

sexta-feira, novembro 23, 2012

pandora


Vi dizer que Pandora me adora
E eu adoro Pandora
Ela se anima quando eu chego
E eu sempre chego
Ela nunca hesita quando eu chamo
A gente sempre se chama
Pandora me adora
E eu adoro Pandora
Com a gente não tem caixa
Nem fachada
Com Pandora a verdade é pura
Verde que vigora
Tem tempo, o colorido da gente se apoderou
E somos espécimes raras
De arcoiris com cavalo de um chifre
Somos livres
Duas borboletas pequeninas e feiticeiras
E nos queremos
Somos flores camélias
Do odor mais incrível e singular
Mas somos comuns
Com os babadores melados de melancia
Descalças
E encantadas com as estrelas da terra
 


quinta-feira, novembro 22, 2012

Salmo à escrita.


Esdras trabalha na livraria.

Só podia. Ser livreiro.

Há tempos escrevi umas cartas a ele.
Cartas de criança,
 de cristã,
 de Cristo.

Ele escreveu umas talvez
muito belas, bem escritas, de escritor...
Mas quardou todas para si.
Cada qual num canto...
Marcando livros,
preenchendo gavetas.

Mas é esse o sentido, não?!
Não me iludo, pois muito me serve todo conteúdo.
Quando a gente escreve é pra gente mesmo.

Pra melhorar nossa alma
No caminho do cinema...
Nossa projeção.
Poder expor na galeria da esquina
As linhas cruzadas e as rimas
Das sinas felinas
das palmas das mãos.
Sem preocupação.
Na calma da paz
da pós-explosão.

Sozinho, vizinho,no caminho
na linha,na caneta, na contra mão.

Quando a gente inventa é assim
pra nossa própria venta
ficar erguida.
Na frente do vento.
Desmedida.

Quando a gente
em paz velha e cotidiana
vai chupando cana
sem preocupação.

Quando a gente escreve e manda
demanda muita coisa
da vida zelosa.
Dádiva que se joga,
que se pisca.
Quando a gente risca
tudo se (des)entende ao pé da letra, à risca.
E não era nada daquilo no fim.
Gosto ruim, é o que fica, é o que acaba ficando
quando a palavra vem assim, com um fim, querendo resposta...

Demanda muito pantim, é uma bosta...
Mas depois acaba melhorando.



2010. Várzea.

quarta-feira, novembro 14, 2012

diana

adorária...
almodovariana procura
e na beleza(redundância)
almadavazãozzzscoroada
de diacoisa que sana
longa e amarelaalmoFada
do busto de pena de marrecodebrincadeira
ela fecha os olhos e sorri a borboleta
pousa no trigo que o vento balança.

A. Mahin
recife, 28 de julho de 2007.
Da série "meus amigos", revistaZlundu)

domingo, novembro 11, 2012

minha flor



Minha flor tem grandes olhos negros castanhos tortuosos, tem o mistério e o humor bom da crisálida; dança e míngua, migra e volve... É um bichinho bonito, uma ave canela que tem bigode fino e sutis costeletas de canideo milagroso – de meu, magro redondo, dançarino jazz.

Flor formosa pelo amor nas repartições do espírito. É um mago dessas habitações aqui. Mira também; é lontra e tonto, roto golfinho e lobo do mar.

Novamente arriscou tocar meu barco.

Propuz certa âncora.

Nossos barcos surgem mais decentes, e a baleia cachalote se engraça deles. Minha flor surgiu tão mais belo, mais tinto e integro, fazendo propostas nos gestos, que aquela baleia não podia deixar de se engraçar de nós.

Suas histórias são lindas – mas acontece que a baleia é apenas uma invenção.

Não tarda e as velas vão se pondo em concavo, tremulam com os ventos dentro e os barcos movem pouquinho no entorno. Há uma elegânte dança na respiração do tempo.

As varas também tremulam, castas feito quem chora em milagre. A gente se olha como quem namora; todos percebem, a bobice é factual.

Ele chega fazendo sua imagem com os sapatos de bico e arqueando as sobrancelhas, e eu no meu corte de cabelo de homem medieval.

Flâmulas; de um lado a caveira de barbas e chapéu, e do outro a que é puramente branca.  As pobres bandeiras se entendendo unas na proa e no desterro; ressignificam nossas mortes constantes.

As gaivotas pequenas da graça reaparecem enquanto pedia pra ver e cheirar debaixo do braço dele, elas se põem no mastro com suas boas energias.

Em outros tempos não chegariamos a tanto.


Guiné da Selva
*da série peixes e ciganos.

quinta-feira, agosto 23, 2012

diana




quarta-feira, agosto 22, 2012

Poema doido e carente pra Rafaela


Coisa cor de laranja
tua presença morena
consigo lembrar
nitidez de tu no tempo
no meio dos desertos
entre os cabritos
tomava o mesmo leite
das cabras
...

Consegui fazer o resto dos trabalhos
que pulavam na minha cara pedindo resolva
"resolva"

Eu com saudade de tu
pra me entender de mim
me entreter do fogo
dos teus olhinhos de amor esborrotando

Pensei que tu nunca veio na minha casa
e eu nunca na tua

Teu telefone inda é o mesmo?

segunda-feira, junho 04, 2012

*ditas

as palavras de vapor adensam o gole
as molduras resvalam
a paisagem fixa

antes, as vossas verdades, de interior
sambando na vista, salvando a lavoura
melhorando a terra

com as palavras do vapor lavando o verde
sobrevoando a vida
verdadeiras
lágrimas

saudade

nas palavras da cidade alta
caixa d'água dentro cano parede
livrando

água mesmo das palavras do aroma
do paladar
de nadar
de escorrer

correm

lavrando tudo

zêlo das palavras cêdo
que vão de vôo
de livramento

sêde das palavras saborosas
de seda, saltitantes, sinuosas, soltas

da boca pra fora

salgadas de mar
saudavéis
simples

de olhos comovidos
e sílêncios sábios

mas as palavras vivas
parasitas da alma
cospem lama, cascas ôcas
crias críticas
saem roucas

poucas palavras
viram idéias
as vezes fixas

volta e meia lhe reviram
lhe dão voz

algozes, azia nublada
que sobe, adensa o gole

palavras de vapor voraz
desejosas, sangrentas
sanguinárias

sarnentas
cadavéricas
verídicas
violentas

violentadas
...


quarta-feira, junho 29, 2011

Raras

Avós e tias avós são coisas raras
Quem dirá bisavós e tatravós

Tia Ceição

Grossos, era o nome do sítio de tia Ceição e Antonio Braz velho. Meu pai me levava pra dormir lá as vezes, a gente ia de moto. Era a casa dos tios dele, ele devia achar muito bom ir lá. Tia Ceição, Conceição, era Galvão, irmã do pai de meu pai, minha tia avó. Alpendre, parede sem quadros, no máximo uma cruz crua de capim na porta pra espantar seca e tempestade. Tinha talvez uma tv antiga ou rádio perto de uma cadeira de balanço de macarrão azul, um pinguim na geladeira... não muito além disso. Tudo era enorme pro meu tamanho de gente. Amarelinhas com vermelho, eu tinha lindas botinhas de pano; carinha de menino sem muito enfeite. Correndo quieta e catando coisinhas no chão, talvez conversando com as formigas. Na noite cedo eram as estórias de trancoso que enchiam na boca de Antoin Braz velho, papai devia insistir... não sei se eu entendia a voz do velho, acho que eu tinha medo dele, a voz bruta de trovoada abafada. Alguma manhã clarinha deu de correr atrás de mim uma galinha, mãe de pintinhos lindos que eu quis pegar. Foi uma injeção de adrenalina. E doeu muito quando o dedo queimou na lindeza egípcia da lagarta de fogo.
Não muito além desse mapeado eu lembro dessa tia avó. Acho que ela devia ter cheiro de leite, de queijo de qualho.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Inacinho

Inácio Mariano Valadares Filho. Falecido; à dois de fevereiro de 2011.
Por ter exercido cargo político um dia, o corpo será levado para Assembléia Legislativa do Estado. Tinha uma simpatia cáustica. Eu gostava dele.

domingo, fevereiro 21, 2010

paranguaricotiromirruaro

Chamar é mar, é intenção fluida, não carece nome fixo. Minha avó sempre tá errando os nomes dos netos, e assim a gente tem que ir aprendendo a responder sendo o outro. A irmã o irmão a tia o pai a prima o primo o cachorro... Exercício antropológico belo. Ela, a vó, diz com 'idade', com ares sertanejos de ave mirante: "vocês me respondam quando eu chamar errado olhando". Ela é uma índia misturada e conhece o plantar e o colher, tem pomar dentro e entre os muros da casa da zona norte paulistana. Os passarinhos visitam a casa com intimidade. Ela briga com o cachorro como se arrancasse tocos da terra. Acordei no pouso. Ela tava cantando branco o assum-preto.

Guiné da Selva
13.jan.2010

quinta-feira, dezembro 03, 2009

amor de índio


Morreu atropelada. Estava com um tumor no seio. Ela nunca teve filhotes. Quando eu tinha uns 8 pra 9 anos achei ela na rua de casa. Assistindo filme até tarde tentava deixar ela durmindo no banheiro, mas ela só latia e latia, aí eu a deixava dormir no meu colo na poltrona. Ela durmia R.E.M, tanto sonho e trimilique... Tinha uma linguinha pequena que foi crescendo e dentinhos de leite que foram caíndo... Ambas.

quarta-feira, novembro 25, 2009

José

José do Egito.
Jogado no poço.

José sentiu medo, Sentiu?

Cordão de umbigo, José.
Útero, ego, e umbigo e cordão.

Vendido de escravo, José,
por vossos irmãos?
Sentiu muita dor, sentiu?

José da túnica colorida...



(José tornou-se um grande psicólogo).

S

Sítio
Sintaxe
Sábado
Símbolo
Sorte
Sorvete
Sartre.


11.6.09

sábado, novembro 21, 2009

pedra

Estrela de cinco letras
(dentro infinito da terra).

Pedra pedra pedra
Uma litografia rara
Pedra rosa quartzo

Pedra pedra pedra
Litogravura que impera
Sim, cristal de rocha
Substantivo feminino

Dura pedra rima
Esculpindo palavras
Significado de pedra:
Corpo duro – sólido
Subistantivo masculino

Pedras geral
da natureza da rocha,
e que, em geral,
serve para construção.

Pedra fundamental
Carbonato de cálcio
Pedra de mão.

Pedra de ara,
pedra de altar,
pedra angular...

Quadro e gamão.

Fina gema...

Esmeril e preciosa,
pedra filosofal,
lascada, polida,
Esmeralda...

a pedra que é pão.

Mineral duro,
transparente e plácido,
claro e translúcido
– de alto valor.

Anaíra Mahin,
Recife – várzea.
19 de novembro de 2009.

quinta-feira, novembro 12, 2009

filha de leão com bode. (pra não dizer que não falei em jacarés).

eu falei, falei, até que ele respondeu. ele me pediu: "não nos deixe silênciosos"... eu nem sei mais... um porção de coisas de dizer, e fico calada pensando no modo. ai, os malditos modos. os benedictos modos. não quero mais dizer nada... dizer demais aliena. gosto de cheirar os ombros das pessoas que amo. amo e pronto. estado de graça solta. não carece tanto dito... mas pra poder cheirar, tenho que deixar claras as intenções? se não?!... ovo frito - pode ser que entre numa torre fragílima... e tenho o abestalhamento do pobrezinho do Ícaro... complexo de filho de artista. sem dar valhor `as hierarquias etárias. dizem q ele é um pato feio, e que mora longe. eu tenho lá minhas dúvidas. acho que ele até mora perto. e os patos feios são mais maneiras de ver que outra coisa. tenho pena de passarinho quando vejo ele vermelho de me olhar... sem saber o que fazer. o que dizer. ele fica constrangido mais que eu...( será?). o olho dele é claro feito olho de criança, duma pureza atrevida, e eu gosto taanto de criança... eu devia dizer isso pra ele, mas não devo ficar alimentando o que não se deve, minha vó sempre reclama que quero fazer do povo mais velho meu "pareceiro", (me sinto tão amiga da minha vó), eu concordo com ela, mas tenho que me garantir nesse feito... se não, nada feito. - Eu só posso amar quem posso morder. estabeleci - essa é a regra geral.

terça-feira, outubro 27, 2009

amora clara

Amora vermelha-preta. Doce mimo. A gente come e faz um cocô escuro, fora o colorido que fica na roupa quando a gente limpa a mão. Minha irmanzinha mais nova tem na chácara da mãe dela um pé de amora bem espalhado. Tinham galhos bem baixinhos para que ela pudesse pegar com os próprios dedinhos rombudos as frutinhas. A boquinha de passarinha ficava borrada de um tom frutal escuro naquele sol de hora do almoço. Tinta doce quente da madureza da manhã.

(Recife, setembro de 2009)

O trânsito.

Tanta coisa pendente que desprende
suspensa que surpreende
nessa segunda dos exus e de obaluaiê,
das pombas que giram, de satanás,
das ciganas tupiniquins, padílhas, pilíntras...

O ofício santo dos ante heróis.

Cheguei em casa e o copo
de vidro quebrou em minha mão.

"Era para o santo" - entende-se.

O rio... 

Diabo das matas, das vinhas,
divino, das ovelhas cabras,
dos carneiros, das cobras,
das cobranças sociais.

A mulher, a noite, o canhoto...

Parte da causa da estigmatização
dos diAbos, dos diEgos, era o medo
que as pessoas condicionadas tinham
a uma ótica estreita de 'desconhecido'.

Mas o rio que flui bifurcado feito perna
aberta, veia da terra, caminha raro...

De longe, muito longe, saltou a voz
agradecida, uma gota d'água doce,
das glândulas salivares do organismotor.

Transitando...

Fui dormir e contei carneirinhos.
Passei numa ponte...
E as estrelas do céu...
E as casinhas na beira do rio,

Uma velha de branco...

Branco o olho e o negro da noite...
Era negra a senhora.

Trabalhava em rendas de bilros,
numa luz amarela...

Negro olho e o branco da noite,
branca a concha do mar,
e o espelho do rio
branca a luz do luar.

Eu passei numa ponte.

Sonhei que estava numa rua larga
e vazia, era a rua amélia, no bairro
das graças, aparecia um menino,
um menino desses de rua, cara
de bicho com raiva, com sono
e fome, cara de sol ardente...

Me virei numa gaivota grande.

As asas queriam conte-lo em abraço
de mãe, começei, gaviota...
Gaivota ou colhereiro?
comecei a desvirar e respirar bem
fundo, acordando mar bravo
dentro. E chorei abraçada.

A essa altura o menino chorava junto,
um respiro largo tomou conta de nós dois.
Era a paz.

Voou outra ave por cima da gente
em forma de sombra, no chão
o reflexo da ave veio na poça d'água
formada do chororô. 

Tinha aparecido uma tartaruga marinha
bem pequena, e a gente quis salvá-la juntos.


(Camaragibe-Recife-Barro Macaxeira-Várzea, dia dos exus e omolus, segunda-feira dia 31 de agosto de 2009)