sábado, maio 22, 2021
Zé encantou-se
O céu aqui dessa mata
Pensei logo que era Zé
De maneira imediata
Em cortejo avoador
Em rastro de luz e cor
Pela paisagem de prata
Nesse metal de chuvisco
Um apito ressoava
No barbatuque dos raios
Que o tempo preparava
Pra receber o brincante
Que em seu vôo galante
Galopante se chegava
"Um capitão de verdade"
Disse outro mestre daqui
Subia tão alinhado
Dessa maneira que vi
Se brilho, fita ou bordado?
Transparecia um dourado...
Despido dessa matéria
Luzindo a beleza etéria
De um colorido encantado
A chuva comunicou
Quem em cortejo passava
Havia festa no céu
O Sol a chuva encontrava
Cá as raposas se uniam
Viúvas se despediam
Da viuvez pr'outo estado
A morte virava vida
E a ave renascida
Cantava já d'outro lado
quinta-feira, novembro 14, 2019
No caminho do mar tinha flor e cura
segunda-feira, setembro 30, 2019
Fluxo d'água corrente
Na foz do meu peito preso
Mora um grito excluído
Silencioso estampido
Calado parece ileso
De animal indefeso
Deu-se em fera encarcerada
Sob a lua enevoada
Sonha a ancestral serpente
Fluxo d'água corrente
Correnteza em retomada
Dou um grito de terror
Sofrendo a dor de outrxs tantos
Ouço os tambores dos Bantus
Aos ancestrais dou louvor
Encontro em mim o sabor
Que havia esquecido
Do genipapo moido
Uma memória que sente
Fluxo d'água corrente
Sob o veio ressequido
Queria encontrar alento
Em um colo ancestral
Uma força natural
Novamente achar intento
Mas parece que o momento
Me Impele à solitude
Sigo o som de um alaúde
Que guia em tom diferente
Tento ser resiliente
Achar no nada a virtude
Um rio reinventado
Passeia no meu trilhar
Círculo o mesmo lugar
Entre pedras o meu nado
Podia ser meu agrado
Lagoa sem movimento
Em cada peixe um lamento
Como se fosse pra gente
Fluxo d'água corrente
No despertar do momento
sexta-feira, agosto 09, 2019
ela
Na tarde que ela chegou
Estampiu-se ela de mim
Feito uma filha real
Uma outra a banhou
A trouxeram embrulhada
Silenciosa buscou-me
No sentido do seio
Estive acabada
Fui cortada ao meio
quinta-feira, fevereiro 21, 2019
Omar
Omar desceu girando do cosmo
Se esparramou entre as frutas da Ceasa
Com as marés nos olhos nos espumou como as bebidas curtidas
Sábio de antigos desertos
De certo um imã, um irmão
No nome o som da criação criança, da graça
Os lábios do doce das tâmaras místicas alucinadas do Saara
Canção de oásis seu peito
Solto entre as palmeiras que abanam o tempo
Pés nas alpargatas, nas areias, nas estrelas, nos passos, nos Caminhos, no claustro, nos abismos, na amplitude, no vôo
Gemido arabesco de pássaro
Omar retorna conosco, somos gratos
Honrados com a sua majestade simples
Dou-te o veludo do meu leite e colo trigueiro
Te aninha em mim, ave santa
És, junto á Esmeralda, o tesouro antigo
Que entre mistérios minou
Gemas sementes tomadas pelo sopro
Dois milagres
terça-feira, fevereiro 05, 2019
Casa
Faltam as palavras
no espelho distante
Cintila a louça do frágil
Cavalga a força solta
com a cria pelo mato
Na busca de chão
os ladrilhos resistentes e belos
Existe um elo apagado
Um pulso ancorado
Um grito embotado
Na minha casa brotou uma mata
Os espíritos de ferrão defendem a ruína
Por toda parte há estilhaço
Como se a casa estivesse nas entranhas
me habita uma borboleta de madeira com cheiro de chuva
Ouço dentro o som da panela que ampara essa goteira antiga
Ouço a louça frágil
Como uma guerra que findou
sem socorro
Com os olhos secos
A vista traga mormaço
O vento cisca as telhas
Esfrego as janelas
Casa assim é palavra difícil
Mata
Na minha casa cresceu uma mata
Enxames guardiões e aves
Venho pra essa casa
Mergulho sua essência
No quarto das armas Omar dorme
Busco me desarmar
Bosque de abundância
Medro entrar
terça-feira, junho 20, 2017
Houve um tempo
Ô linda, verde
Louvando a deus
A Mônica zen
O anjo da guarda
A luz entrando
[Pelos portais
Árvore roxa
Caminho do açudim
Vital, Veneza, Grossos
Os reis magos
Lapinha improvisada
O Tapete patch Work
Elefantes, cavalos, jacarés
Circo carro céu
Tucano da almofada
A mente cheia de estórias
Minha vida cinema casa
As madrugadas de terror
Amor cor som emoções
Carros no salão grande
Encontro os arabescos
As janelas e as paredes grossas
Teatro corpo grupal
Liberdade de sentir
Abrir as torneiras
O fim é o começo
Tranças chapéus
Quadriculando fogo
Houve um tempo
Em que era moça
Com cauda de peixe
Tinha estrelas azuis... e presentes
Houve um tempo que revivi
Antigos caboclos
De lanças, plumas e brilhos
Com os pés amarelos
No chão vermelho
E madeira negra
De cipó pendurado
Esse tempo preto
quinta-feira, maio 25, 2017
No tempo das ancestrais
No tempo das ancestrais
Esteios, raízes, sonhos
Flores, folhagens, banhos
Contos, cantos divinais
No tempo das ancestrais
Mosquiteiros e descansos
Patos galinhas e gansos
Terreiros, sítios, quintais
No tempo das ancestrais
Rezas, enfeites, anáguas
Rosas, ervas, bentas águas
Sincréticos rituais
Explanações cambiais
Sapiencias e saberes
Profecias e dizeres
Considerações, portais
No tempo das ancestrais
Curandeiras, benzedeiros
Boticários viajeiros
Frascos, perfumes astrais
No tempo das ancestrais
Goteiras em caçarolas
Recados e camisolas
Pecados originais
No tempo das ancestrais
Segredos, arcas, baús
Casas grandes, urubus
Amor de primos carnais
No tempo das ancestrais
Coisas de couro, couraças
Jabutis e carapaças
Jugos, preceitos morais
No tempo das ancestrais
Abanos de palha, esteiras
Gentes vendidas nas feiras
Poderes podres demais
No tempo das ancestrais
Tostões, cruzeiros, reais
Ouro, prata, vis metais
Castas, classes sociais
No tempo das ancestrais
Cruzadas e castidades
Hipocrisia, maldade
Fogueiras eclesiais
No tempo das ancestrais
Caminhos longos, assombros
Desconstruções e escombros
Peregrinações gerais
No tempo das ancestrais
Alma, espírito, lamento
Um despertar lamacento
Em regiões abissais
No tempo das ancestrais
Corpos, danças condoídas
Relatos de morte vida
Estórias de animais
No tempo das ancestrais
Algodão, linho e chita
Fazenda, linha e fita
Costura que se resfaz
No tempo das ancestrais
Luas, sóis, ciclos, janeiros
Ventos fortes e maneiros
Renascimentos, finais
domingo, janeiro 01, 2017
Salmo silvo
quarta-feira, agosto 20, 2014
Encontrada
média três kilos já tem
a sua saída
e a menina aprontada
já não se adianta
mas já se encontra
sexta-feira, agosto 01, 2014
leite
leite tem o gosto do primeiro gozo, primeiro contato, gosto de mãe.
mãe é coisa tão boa que mesmo sem lactose, sem leite e sem peito.
segunda-feira, julho 14, 2014
III
sábado, julho 27, 2013
gelos secos
domingo, julho 07, 2013
clenice-wood
(à mainha)
Toda a graça, legastes
O exemplo e a quimera
Força-luz que reverbera
Sentido têxtil da haste
Bandeira que encaminhastes
Fincada no chão que gera
Entre sol e primavera
Fostes encontro, e gerastes
És potente na cadência
Humana, flor de essência
Companheira que anima
Copa grata florescida
Mais que isso, agradecida
Parceira de canto e rima
thiago
que brincava de telejornal
que virava as cadeiras de balanço
que brincava comigo
menino de são joão
de rosário, de xangô
menino thiago mouro
menino thiago terno
da revolução riscada no quarto
da devolução do livro na biblioteca da faculdade
da disciplina de estudar só
tio thiago, thiago tio de sofia
namorado do namorado, da filosofia
amigo do ex, amigo do que não foi
sem barreira. thiago antigo
amigo que deita e cose
cozinha santa de calcanhar
domingo, maio 05, 2013
soneto solto pra irmã Natascha que foi morar no Rio de Janeiro
e um cheiro de chavo e canela,
Ciganinha vermelha e amarela
se transforma em amor e confiança,
se refaz e sorri feito criança,
que abundante deixastes alimento
pois o espelho transborda e revela
na verdade amorosa do olhar
tens a força das curas ancestrais
dos encontros do rio com o mar
sexta-feira, novembro 23, 2012
pandora
Vi dizer que Pandora me adora
quinta-feira, novembro 22, 2012
Salmo à escrita.
quarta-feira, novembro 14, 2012
diana
almodovariana procura
e na beleza(redundância)
almadavazãozzzscoroada
de diacoisa que sana
longa e amarelaalmoFada
do busto de pena de marrecodebrincadeira
ela fecha os olhos e sorri a borboleta
pousa no trigo que o vento balança.
A. Mahin
recife, 28 de julho de 2007.
Da série "meus amigos", revistaZlundu)
domingo, novembro 11, 2012
minha flor
Guiné da Selva
quinta-feira, agosto 23, 2012
quarta-feira, agosto 22, 2012
Poema doido e carente pra Rafaela
Coisa cor de laranja
tua presença morena
consigo lembrar
nitidez de tu no tempo
no meio dos desertos
entre os cabritos
tomava o mesmo leite
das cabras
...
Consegui fazer o resto dos trabalhos
que pulavam na minha cara pedindo resolva
"resolva"
Eu com saudade de tu
pra me entender de mim
me entreter do fogo
dos teus olhinhos de amor esborrotando
Pensei que tu nunca veio na minha casa
e eu nunca na tua
Teu telefone inda é o mesmo?
segunda-feira, junho 04, 2012
*ditas
antes, as vossas verdades, de interior
quarta-feira, junho 29, 2011
Tia Ceição
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Inacinho
Por ter exercido cargo político um dia, o corpo será levado para Assembléia Legislativa do Estado. Tinha uma simpatia cáustica. Eu gostava dele.
domingo, fevereiro 21, 2010
paranguaricotiromirruaro
quinta-feira, dezembro 03, 2009
amor de índio

quarta-feira, novembro 25, 2009
José
Jogado no poço.
José sentiu medo, Sentiu?
Cordão de umbigo, José.
Útero, ego, e umbigo e cordão.
Vendido de escravo, José,
por vossos irmãos?
Sentiu muita dor, sentiu?
José da túnica colorida...
(José tornou-se um grande psicólogo).
sábado, novembro 21, 2009
pedra
(dentro infinito da terra).
Pedra pedra pedra
Uma litografia rara
Pedra rosa quartzo
Pedra pedra pedra
Litogravura que impera
Sim, cristal de rocha
Substantivo feminino
Dura pedra rima
Esculpindo palavras
Significado de pedra:
Corpo duro – sólido
Pedras geral
da natureza da rocha,
e que, em geral,
serve para construção.
Pedra fundamental
Carbonato de cálcio
Pedra de mão.
Pedra de ara,
pedra de altar,
pedra angular...
Quadro e gamão.
Fina gema...
Esmeril e preciosa,
pedra filosofal,
lascada, polida,
a pedra que é pão.
Mineral duro,
transparente e plácido,
claro e translúcido
– de alto valor.
quinta-feira, novembro 12, 2009
filha de leão com bode. (pra não dizer que não falei em jacarés).
terça-feira, outubro 27, 2009
amora clara
O trânsito.
suspensa que surpreende
nessa segunda dos exus e de obaluaiê,
das pombas que giram, de satanás,
das ciganas tupiniquins, padílhas, pilíntras...
O ofício santo dos ante heróis.
Cheguei em casa e o copo
de vidro quebrou em minha mão.
"Era para o santo" - entende-se.
O rio...
Diabo das matas, das vinhas,
divino, das ovelhas cabras,
dos carneiros, das cobras,
das cobranças sociais.
A mulher, a noite, o canhoto...
Parte da causa da estigmatização
dos diAbos, dos diEgos, era o medo
que as pessoas condicionadas tinham
a uma ótica estreita de 'desconhecido'.
Mas o rio que flui bifurcado feito perna
aberta, veia da terra, caminha raro...
De longe, muito longe, saltou a voz
agradecida, uma gota d'água doce,
das glândulas salivares do organismotor.
Transitando...
Fui dormir e contei carneirinhos.
Passei numa ponte...
E as estrelas do céu...
E as casinhas na beira do rio,
Uma velha de branco...
Branco o olho e o negro da noite...
Era negra a senhora.
Trabalhava em rendas de bilros,
numa luz amarela...
Negro olho e o branco da noite,
branca a concha do mar,
e o espelho do rio
branca a luz do luar.
Eu passei numa ponte.
Sonhei que estava numa rua larga
e vazia, era a rua amélia, no bairro
das graças, aparecia um menino,
um menino desses de rua, cara
de bicho com raiva, com sono
e fome, cara de sol ardente...
Me virei numa gaivota grande.
As asas queriam conte-lo em abraço
de mãe, começei, gaviota...
Gaivota ou colhereiro?
comecei a desvirar e respirar bem
fundo, acordando mar bravo
dentro. E chorei abraçada.
A essa altura o menino chorava junto,
um respiro largo tomou conta de nós dois.
Era a paz.
Voou outra ave por cima da gente
em forma de sombra, no chão
o reflexo da ave veio na poça d'água
formada do chororô.
Tinha aparecido uma tartaruga marinha
bem pequena, e a gente quis salvá-la juntos.
(Camaragibe-Recife-Barro Macaxeira-Várzea, dia dos exus e omolus, segunda-feira dia 31 de agosto de 2009)

