quinta-feira, setembro 24, 2009

sábia


No meu quintal, andando no chão - grande com pernas finas - uma sabiá sem gaiola.
Voou! E a menina que gostava tanto do bichinho entendeu e sorriu.
Surgiu um sol na sua face, e ainda, um pingo de gratidão em cada fenda ocular.

(Recife, 18 de outubro de 2002).

bons exemplos de mortos vivos

A janela ficou entreaberta
Construiu-se uma relação de vidro
Uma verdade de fumaça fez trincar
Aí está, uma amizade em coma.
Como se alimenta algo nesse estado?
Com tubos? Faltou um cuidado a mais...
E agora como ela respira?
(Me preocupa mais que nunca).
Vigília constante.
Logo agora que cuidava do pé direito que pisou em falso!
Logo agora que me fortalecia, alimentando-me de nossas carências distintas.

Logo agora, que ambas as parte apareciam querendo e dando ombro.

A janela ficou abrindo sozinha com esse ventinho terno das carências...

Enquanto isso, a porta do armário do quarto escuro do inconsciente, esperava o vento chegar até ela. Ela carecia desse pretexto pra se abrir.

Armário antigo. Cansado do que guardou. Coisa mal quista, coisa confusa. Cheia de fusos fiando.
Coisa que o vento quis fechar.
Que não queria companhia assim no sol.

A janela ficou entre aberta
A lua, vez ou outra, espiava intranqüila de saber.
O vento deixou de ter dedos e ventilou mesmo
Abriu e bateu portas.
Expôs arteiro
Pro sol claro
Estrelado
Ovo-frito.


(Recife, 17.01.2009).

circulação afetiva

Circulação afetiva

A carência afetiva
A energia elétrica
A forma de bolo
O pão integral

O crime o castigo
O coco o umbigo
O carrossel

A espiga de milho
A cantiga e o filho
O embrião

O feijão de corda
A fome que engorda
A paz que me acorda
O coração

(Recife, 2009)

o matrimônio da espécie

O matrimônio da espécie.
À Aparecida Nogueira.



A crise energética
A invenção da carne de sol
A crise existencial.

O patrimônio da espécie
O matrimônio da raposa
A chuva persistente.

Todos esses, saberes e práticas,
Contemporâneos a nós.

- Akira Kurosawa e meus sonhos.

O aprender é o afeto
O apreender amplo
O corpo amplo

O ovo
O feto
O templo
O nada

Simultaneidade dos mundos...
“Cabra e cabreiro”
A física sinfônica

A comunicação
“As cabras têm nome”
O laboratório natural
Minha arte sacra.

O mito de eco
O sacrifício
O cuidado.

O animal
A troca
O perdão.

O leão de Neméia
A amêndoa doce
O veículo.

A mosca fresca
A teia branca
A viúva negra.

O sopro de Oxalá
O deus interno
Os Sufis.

Hermes de asas nos pés
Íris de luas têmperas
Os raios em Xangô.

O desfile das escolas de samba
Os sambas sem escolas.
Os sambas escolas.

O OROBORO
O poema sem fim.
O sistema aberto.


A. Mahin
27.02.2009
Várzea.

terça-feira, setembro 22, 2009

Para Pollyanna

Feito Pocahontas Pollyana é uma indiazinha elástica cor de ágata com jaboticaba
cor de breu queimado castanho caramelo ameixa
Os dentes dela são ossos bem fortes de quebrar coquinho guariroba e babaçú
de morder branco e roer osso.
Brincava as tardes alaranjadas pelas margens do Rio Opara
quando conheceu, Traíra, Dourado, tambaqui, Piaba... E outro seres da invisibilidade.
Lá, gostava de ver o mundo de cima de um juazeiro humilde e grande.
Conheceu muitas histórias de aves transeuntes, viandantes...
Histórias de trajetos longos, de outros ângulos...
e aprendeu com isso a falar outras línguas, de assobio e gargarejadas.
Tinha gosto pelo colorido que as aves completavam no céu
e nas ramagens arbóreas, as vezes pálidas, da caatinga.
Aprendeu a ler os calangos das pedras e dos garranchos,
entendendo ser de extrema importância a expériencia daqueles que furtam cor...
Um dia se enamorou de um Galo-de-campina com quem casou e adotou cachorros de rua.
Ouvi dizer, que a família dela era daquelas que fariam gosto que ela fizesse 'teatro' - e ela fez 'direito'. Assim, com essa formação para o mundo sensível,
com essa aptidão para a plenitude, é que do curso de fisíoterapia ela fez iogas
e hoje dá aulas de dança nas periferias de uma metropolezinha tropical.
É, dentro dessa dimensão amorosa, que flui salgada agüinha dos olhos,
quando vê bailarinas que aparecem salvando os filmes de gangsters,
ou a estrela acesa nos olhos do pequeno Billy Eliot, na tela, em rodopio.
E, é dessa maneira afetiva que avida dá-se em música. 


 Amoraíra Mahin, Recife, 22, set. 2009.

quinta-feira, setembro 10, 2009

água de chocalho

à Paulo Michelotto.

"carnaval-fora-do-tempo"
adoro gente que fala... água de chocallho.
água do chocalho dos olhos, marejam as azeitonas oleosas
dançando pra deus. com sono até hoje. um monte de coisas. umbanda.
eu era diácono. era a minha pregação. minha igreja. minha comunidade eclesial de base. era eu.
mas a liberdade tem que ser oleosa, tem que ter horizonte.
- A literatura oral.


Alecrim Mahin.
25.08.2009

quinta-feira, agosto 27, 2009

reescrevendo o céu



A menina é azul e cinza.

Pra baixo,
um jeans longo elástico marinho,
(riscado em linhas verticais finas demais).

Pra cima,
(como do horizonte subindo)
um moleton de mangas de capuz e ziper, (parece quentinho).

Ela escreve com nanquim,
o nanquim é da caneta que é cinza feito o agasalho.

O cabelo castanho ondula um pouco
acarinhando o pescoço quando mexe.

Ela parece o céu nublando,
mas tem uma meia lua bonita no rosto
e as sobrancelhas são como dois passarinhos voando de ponta cabeça.

O caderno que ela (ar)risca é florido e azul e celeste,
a sandália é velha,
deve saber muito dos caminhos
comunga com os pés num sexo tranquilo.

Ela, a moça,
é uma dança contida e densa,
como já disse, parece um céu, denso,
e que, em dança, goteja e estronda...

Tem força,
no infinito castanho que é ferramenta da visão,
como uma palestinazinha de granito.


(Recife, 25 de agosto de 2009)

terça-feira, agosto 11, 2009

retrato


retrato vermelho


segunda-feira, março 30, 2009

sonhos

Noite sem seres humanos
Estou fechada em nuvens
Meus olhos parecem ser de até logo
Os de adeus são bem mais expressivos
mas os meus só representam...

La larilala larilala larilala...

Encontrei a ponta do arco-íris
E vi um velho sorrindo
Um velho de olho cego
Vi um velho sorrindo, e sem rir...
Encontrei a ponta do arco-íris
Nos dedos do velho sem íris
Sorriam anéis doirados
Sorriam ao sol e a mim
Sorriam tal qual o velho,
Que mesmo sem dentes
Não me sorriu acanhado

(Recife, 2002).

Oração à Temperança.

Que o colorido seja unido
Seja entendido e respeitado
Que o colorido seja herói
Não tenha as mãos e os pés atados
Que tenha voz o colorido
Que seja ouvido e vá nu vento
Sendo veloz ou sendo lento
Que sábio espalhe seu sentido.

(Recife, 2002).

Pneumoboxer.

Hoje me bati um pouco
Hoje ja chorei bastante
Hoje me bati na cara
contracenando com o espelho

Contracenando com o espelho
Hoje me bati na cara
Hoje já chorei bastante
Fiquei de olho vermelho

Mas foi uma brincadeira
Uma brincadeira etérea
Cutucando a agonia
Que estava ficando séria

É que quando a gente chora
Faz careta expectora
E o pulmão fica feliz
Quando assoas o nariz.

(Recife, dezembro de 2008).

Jacaré-minininho.

Quando eu tinha dois anos
Meus pais me levavam a parques
Para passear

Ao parque da jaqueira
A praça do derby
E ao hospital Ulisses Pernambucano
Popular Tamarineira...

Eles me levavam a tantos lugares
A Mesbla e também a casas de vários amigos deles
Eu chamava de tios (-tios!)
Os amigos que eles mais gostavam
E até hoje chamo alguns
Que acho mais bonito assim.

Era bom quando eu era criança
Morando em recife
Na rua do Jeriquiti...
E achando engraçado
Ir a Pau-amarelo
Ir a praia do Janga
Ir a Maria Farinha.

Meu pai passeava comigo
Pelo centro da cidade
Eu conhecendo cantos
Por muitos lugares

Lojas de departamento, bancos, bares, mares.

Tinham lojas brasileiras
Tinhas lojas pernambucanas
E a arapuä...

Meu pai me levava
Ao banco de Pernambuco bandepe
E eu tomava chá

Meu pai me levava no bar
E eu lanchava ovo de codorna
E amendoim

Eu não achava ruim (nada ruim)
Achava tudo bom (tudo bom)

Por isso é que canto assim
Por isso é que faço esse som.

Na praça do Derby
Morava uma peixe-boi
Em um tanque sem espaço
Bem espremidinha assim
Ela ficou com escoliose
Eu também tenho escoliose
O nome dela era Francisca
O meu pai foi frade franciscano

Mas graças a são Francisco (Graças!)
Que um tal projeto peixe boi
Tirou ela de lá
E ela inda teve três filhinho
Bem gordinhos e grandoesinhos
Que mamaram muito
Mas eu só ouvi falar.

Um dia no horto de dois irmãos
Eu passava por vários bichos
E me deparei com uma cena
Muito da bonita
Eram dois jacarés
Um grande e outro pequeno
E eu disse olha mainha
Venha ver o jacaré minininho
Olha mainha o jacaré minininho

Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho
Olha mainha o jacaré-minininho

Samba de pedra

Criança de pedra de cachoeira
desagua, derrama
no cristalino véu gelado.

A paz da água que corre livre
ensina amor a pedra dura
e cura impasse...
Ampla a relação da água com o todo.

Água que o Sol chama ao vôo
que a terra trata, 
que a planta pede
que a nuvem sede
que em onda arrebata.

Pedra a água
em relação com baixas temperaturas.

Pedra, que guarda a rocha,
Que aguarda a flor...
Uma gema enternecida de fogo.

Aguarda fria a luz do dia.


Recife
 22.02.2009

segunda-feira, janeiro 19, 2009

toda asma

sim
que tenha leveza
que amor ao contrário do que dizem
não precisa ter sofrimento
que o vento encaminhe
que amor que é amor
não fecha a janela
sim, que deixe em paz
que amor pra que viva não sufoca
há de respirar mais e mais...
sim,
tambem que compreenda
que amor que é amor compreende...
todos os pesares
todos os sofreres
todos os clichês
todas as clausuras
todas as agonias
as inquietações
todos os suicídios
toda asma
que amor pra que viva
não sufoca
há de respirar mais e mais.

terça-feira, julho 15, 2008

nascimento de chuva da tarde.


NAHINÃ
NAHINÃ
NAHINÃ
NAHINÃ
pingo de mel
menino
manhã de céu
estrela
gota por gota
pingo poeira
mormaço
antes da noite
aurora
vento de chuva
terna amarela
bate no chão...
NAHINÃ
NAHINÃ
NAHINÃ
NAHINÃ
prisma piá
calmando a luz
em arco-íris
Krishna jesus
chuva
-mirim
toró
-curumim.

terça-feira, julho 08, 2008

Betsabá


Eu gosto tanto dele
Que podia fagocita-lo
Engoli-lo, comê-lo mesmo
degluti-lo
Queria todo ele
Em seus não sei quantos quilos
Queria tê-lo
em pêlo
Sem todos os grilos
Mas que faço eu
Minha barriga é pequena e não o cabe
O meu útero é pequeno e não o cabe
E mesmo se grande fosse
Não cabe caber pedaço
Ensinou-me Salomão
Que a mãe verdadeira
Que ama maior
Quer ver o filho inteiro
E não a parte
só


29.nov.2006

sábado, junho 21, 2008

88888888



... um sentimento novo na geografia nova da cidade grande. eu, criança de passagem,
e de entusiasmo em experimentar, parcimoniosa, entretanto. com abertura de vento e água morna...

conhecendo aos poucos os índiozinhos da aldeia. um dia desses, de estrela na testa, q sai. e feito barco solto, ou louco de inicio de viagem aberta... que é protegido por anjo de guarda. minha anja se perdeu de mim de propósito porque eu tinha de ficar naventura, sem asa de anja de sombra própria. encontrei, então um índio sem nome da índia país e uma coruja-maromverdeazulcobalto, e eram çarungaua e sofia. tinha tamem o menino guma, era menino ainda mais q eu, usava uns óculos. redondo.

fazia frio, e um boto que marejava me emprestou uma camisa de gola, meio branca ostra por dentro, madreperolada, era uma camisa social. esse boto chamava eduardo. mas num inporta muito o nome de dizer...
desde, quando quero, me ilustro de ostra com a camisa em prestada. e tambem isso não importa muito tamem não. mais que a camisa, mais q o bardo mais q a brisa... importa a história toda. infinita síntese.

quarta-feira, junho 18, 2008

a dança das aves




eu não estou apaixonada não
só carente um pouco irmão
só querendo colo e chão...
só de frôzo só de funfunfê.
querendo brincar leve
me leve irmão
pra uma situação outra
em q não seja a outra não
q haja colo e chão
e onde haja sempre perdão
de irmão
entendimento e mão.

bem, só quero alguem,
q ame zem e sem condição.
que queira bem de leve
e de have metal

equilibrando o bem e o mal
(- em breve nos cinemas!)
frio de neve pra cobertor
a sala escura sem projetor
vivendo sul mais Este
(-sudeste
veste)
investe neste setor
pelicula de horror
o susto faz a ocasião
em traveling
mover de trem e sing
cantei sem mais
agora não tem mais não
e acabou-se o qu'era pão doce
queria tanto q fosse, pão
a continuação do fim
melado de alfinim
(-enjoo?) voou!

te gosto tanto pão
foi tudo tão depressa
(- o contato a conversa)
quando me vi ja tava vivendo
sem perguntar de tu
e quando vi tu tava tatu
(- é, é fato, eu tambem me tatuei)

mas era tanto pra te falar
que me faltava ar
e agora já não tem mais(?)
(- as vezes parece q estou em paz)
mas eram tantos ais
foi tudo tão depressa
(-o contato a conversa)

teu olho nuvem densa
tanta matéria pensa
tensa

e foi assim q me senti em casa
e dividindo a cama
coisa de quem se ama
te amo boy!

(- sinto saudade sua)

q agora já não tem mais.

segunda-feira, junho 02, 2008

revista lundu



carmem miranda
é uma guiné
chico buarque
chico xavier

sempre a meia noite
sempre a meia noite

a galinha d'angola
é uma guiné
saiu pela rua
saiu penada de lua
e quebrou o pé

sempre a meia noite
dancava afoxé

atravessado o mar
fui pra cuiabá
encontrei saci e peri
tomei suco de murici
fiz amigos bons lá do piauí.

atravessou o mar
com Yorubá
fez amigos de cambuci
se enfeitou com abacaxi
contou causo pra gente rir
aprendeu a fazer xixi em pé.

foi cinema novo que sussedeu
tinha tanto velho que já morreu

e pra iracema cantando lá
tomando jurema pra iemanjá...
fiz outro poema sem me lembrar...

todo mundo rema
tudo vai pro mar
era iracema
queu queria omar
era ira cema
era ita mar

ca ca caca ca ca caca

carregando pedra pra depois quebra...

tou fraco tô fraco

galinha do mato é mulher
de papua nova guiné
de angola guiné bissau
veio de sequestro naval
- tou passando mal!

e do banzo veio banzé
e depois regina cazé

eu só não virei esmolé
porque tenho muita fé.


fui de umbanda e de candomblé
fui cacique e fui pajé
de garrincha joguei pele
(maradona carlinhos bala
nunca mais que eu sai nessa ala)
gosto de cantar kinem macalé


todo mundo é samba canção
veio da costela de adão
todo mundo é meio mulher
jesus e maria e josé.


virei poliglota
lá no senegal

era goa e gana - gol!
e um grito de gal - gal!

joga bola de avental
- olha o alto astral!

e do banzo veio banzé
e depois regina cazé

todos tão no ciclo do açucar e do café
todos tão no ciclo
do açucar e do café.

no terreiro meu reso missa
louvo a santa paz da preguiça
cacarejo canto em coral
e toco um bethowem no berinbal...

e desse toré que debanda
somos vocalistas da banda
mas quem manda nesse lugar
é o canto do Sabiá!

ca ca caca ca ca caca

tou fraco tô fraco.

frei antônio do meninim


eu te agradeço
santo antoin do mininim
graça alcançada
santo antoin do mininim
nós demo certo
santo antoin do mininim
nós acentamo
santo antoin do mininim
foi tão bunito
santo antoin do mininim
nós dois se oiando
santo antoin do mininim
nos dois surrindo
santo antoin do mininim
de ureia a ureia
santo antoin do mininim

a lua meia
beijando o barro
cruzando o céu
santo antoin do mininin

fogeira acesa
esquenta a lua
da tua face
santo antoin do mininin
Meus dói aceso 
Acende o rubro
Da face dele
Santo Antoin do meninin

frei antoim da simpatia
frei antoim do esplendor
escutasse o queu dizia, frei Antoin
me trussesse meu amô

a lua meia
beijando o barro
cruzando o céu
santo antoin do mininim

meus ói aceso
acende o rubro
da face dele
santo antoin do mininim

frei antoim do encantamento
frei antoim dessa oração
aprendi com irmão vento, frei antoim
a ouvir meu coração

quinta-feira, março 06, 2008

laura das graças


laura maria do nascimento
o que é que voce fez comigo
isso não existe laura melo
isso não tem graça
isso não tem jeito

laura maria do nascimento
o que é que voce fez com o meu peito
está sangrando laura melo
sangue
voce não tem alma
laura zalma

laura maria do nascimento
voce arrobou o meu peito
com uma foiçada
e como ousa
laura sousa

laura maria do nascimento
porque voce me maltrata
me destrata
não me trata
estou doente, e voce nem se comove


laura maria do nascimento
voce nem me liga
nem finge que liga
voce não é amiga
a gente não briga
laura

voce me distrai (não bata palma laura zalma) me desfaz
quantos ais
aiaiaiaiaia...

- hahahahaahahahaha
não ria
laura maria

sua louca!

laura das graças.
ps: o desenho é da artista plástica laura melo sousamaria do nascimento zalma, pra quem improvisei essa letra.

a coruja e o cabrito

quando eu era criança
morava numa usina

lá moravam uma coruja e uma cabra

e eu tomava muito leite de cabra
porque a cabra tinha tido dois cabritinhos
um branquinho e outro marrom

mas o branquinho ela não quis não.

e amamentamos ele com leite de vaca
e ele ficou muito barrigudo
e a coruja - coitadinha -
boa mãe do jeito que ela era
querendo comida do jeito que ela queria
mirou:

- olha olha, que cabritinho mais roliço!

uh uh
aaaaah
aaaaaah
mérr méérrr
aaaaah
mééééérrrrrrrr


(dudu and yo###### 03 ou 04 de 2008 - sao paolo) .

terça-feira, março 04, 2008

resposta de mar ao polvo


olá,
bom... está cá em baixo o poeminha que acabei refazendo hoje, acho que ele até ficou com um fim mais bunito, mais filiz. fico mui grata pelas palavrinhas dialogantes do escrito mais recente que você me mandou, são importantes pro "irmão sol e pra irmã lua" do meu sentir e pra continuidade desse belo encontro.
e que a culpa fique sendo da culpa mesmo, pra que não nos (me) adoeça,
e num cuidado zêloso, caetaneando e velando o que jaz(z) e se transfosma em si (ou em qualquer outra nota).

abraço forte de chorosidade boa,

naíra


ps: hoje mainha tava lendo o livro de cordel de cora coralina e chorou lendo os poemas pra neruda.

eu tambem chorei bunito lendo outros antes de viajar, em cumbica... foi linda leitura de volta.



(resposta de mar a polvo)


tanto tentáculo o polvo tem
que confunde o outro

e a tudo ele toca
teclando
teclando

pianinho o polvo passa
cumprimentando de tato
pedra, coral e mar

e mergulha polvo
mar vermelho fluido e raiz
doado
mar que não tem forma própria
que se molda ao chão
(de areia pedra e coral)

mar uterino
que se molda ao polvo
a_conch(a)ega


o polvo tem tanto tentáculo
e mar se molda a cada um
amalgama
envolve

casúla

polvo solta tinta
pinta distinto quando medo
e colore o mar
(em segredo)

mar, que ama ser mar
vira chuva vez ou outra
transpira... chora
pra melhor lidar
com a fauna e flora
que em lá habita
e em todas as notas.


de tanto afago que tem
mar, a tudo que o transíta,
cansa
canções
cantigas
as vezes secas,
se encolhe
outras,
briga,
algo,
urrando
e cospe e grita
louco!

mas tudo isso mar faz de sábio,

pra não se caranguejear demais,
criar casca muito dura,
inibir cura.

só pra não virar mar morto
ficar muito salgado na vida

chove
fica docinho
com seus pajés-rios afluentes
influentes compadres comadres e afilhados.

ser concha sirí caranguê xié
e andar de lado, de dor
cheia de esoesqueletos
só pra ser mais elegante?!...

dá certo não.

é melhor pegar a tinta do polvo
gardar em si
e escrever uma carta de digestão
transcendendo a questão
de dó
de ré
de mi

ser sol,
mar evaporado
e arrecife pedregoso.


flor e salamandra.

quarta-feira, setembro 26, 2007

carta avante


caro,

deixei os teus agrados no mar, que a maré, quando encher, os devora.
e assim, eles vão embora, e assim deles não sinto saudade de dor no peito.
abrevio que não te chateis, porque foi o jeito que achei de lidar com tão linda presença
que sela e cavalga no rumo oposto.
dessa maneira, pela lindeza que ao azul entrego, e que em ti está incutida,
saudo tua ida,

voôs bem livres!

carinhosamente,

a. mahin.

segunda-feira, setembro 24, 2007

plenitude lacaniana


sentires apegados

as conciências me acordam com umas não palavras

era a lígua que falam os bebés...

que falam as plantas, os desenhos talvez falem outra língua parecida...

ainda espero q esse samba cante


teu despreso repartia o inteiro

eu em reza pedia teu cheiro

tu distante me olhava e ria

eu em tom de te sentir mais perto

não enxergava o teu peito aberto

triste pensar que inda me atraía


mas alimento essa situação

reengolindo o coração da mão

sendo meu pão essa paixão macia

que mesmo perto estando tão distante

ainda espero que esse samba cante

e mate a coisa que nos distancia


amor perdoa a imaturaidade

é que eu sinto tanta da saudade

que até me calo, fico com vergonha

e remoeendo esse canto mudo

penso que tu devias ouvir tudo

e se ganhando mais a gente ganha.

quarta-feira, março 14, 2007

Quando Recife

Quando recife era criança
eu era talvez futuro
e a rua do futuro, talvez fosse algum brejinho
de indiozinho se alumbrando com a arquitetura natural
de pau nativo terra e molhado
dos ventos e inventos do além mar
Na vazante de uma rua do sol
a nado de nau e vela e a negro
uma rua nova
que mesmo que sobre urucum e fogo
trouxe progresso
rua nova nascendo
e eu nem novinha era ainda
Oh, linda
já mãe marim de Recife
de pernão Buco quebrava o mar
nascia em cima de morto, comércio porto.
instalavam-se ruas da moeda, da palma...
suada, revertidas moedas abstratas
da força e dos bens da terra
ai meu bom jesus, traz um caminho de mais sossego
ao menos uma rua, de sossego, de união
-e pediram e veio
E outro dia Recife se verticalizando alado
até quando?- perguntou o chão
e a rua do hospício nasceu no reverso
fazendo juízo no verso

na pauta


ai cristinho, qué queu faço com esse menino
me diz minha nossa senhora da conceição
seu coração é muito e seu olhar tão fino
que chega a agoniar meu vão.

ai meu rio são francisco
qué queu faço comigo
com esse meu umbigo
com esse meu apego
que as vezes aparece tanto cisco na vista
e esse rio querendo desaguar forte
mas tendo que ter tanto dedo.

ai que sorte bifurcada
alada e tão dada demais
de dois baços sem ter canto.

tem hora até,
queu me dou conta do exagero
e te desabraço e olho de lado
meio alto.

tenho na pauta
que devo trabalhar a tua falta.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

malabares

jantares
malabares
que voan
pelos ares
bem longe
dos altares
dos santos
que choram
sangue
de gentes
que não têm lares
nem jantares

recife, 2001.

quinta-feira, novembro 30, 2006

lundu total


uma desconsolação de quem não sabe andar
constante essa busca humana minha
preto branco e bé de cabra
leite, vó e tardesinha
sem ser só de tanta gente
(deus me livre ser discrente)
minha prima, amigo, mote
miolo de pote
mas é pequena a cidade
toda ela é vizinha, é de idade
pacata, e verde amarga raiz forte
quase oriente, quase médio
tão boa, mas quase tédio
me ensinou tanta coisa linda
e parece que ensina ainda
distãncia, aspereza, chão
lidar com a inquietação
Irã, Palestina, Afeganistão
inquisição, inquisição, inquisição.

uma ave voou dentro de mim
uma ave que não voa
(- uma ave que não voa voou pra dentro de mim???
que nada!!!)
uma ave que nada,
e tem um oceano no olhar...
que bonito!

Se cria?!

querido não sei não
é uma situação estranha
que agonia a pessoa
mas é bom que eu saiba 
que nem tudo que a gente quer 
a gente tem...
eu tenho a impressão 
de que já sei disso
mesmo assim 
continuo querendo
continuo querendo
mesmo assim..
num é ruim?!
tu deves saber disso
ter passado por isso...
um zumbido no ouvido, um fastio, ...
um rio bem grande 
que a gente tenta
represar, e num consegue...
aí que fuínha, que bucho agitado
olha meu estado!

se cria?...
poesia tem
mas é um cumê sem mistura,
um xerém tão seco,
tão salgado.

algum novembro da vida


Ainda bem
Que você cortou essa ração que me fornecia
Deixou de alimentar minha poesia
Meu vão

Agora, ainda bem
Já consigo entender melhor
E como mulher me proponho a ser gente
E diferente de antes me ponho a nossa frente
E te proponho voz

Nesse instante, ainda bem
Que você entende
E estende um pouco mais teu varal de roupa pra perto de mim
Que inda apesar de molhada e condensada
Que pouco evapora de quase nada que pinga no fim

Ainda bem
Que mesmo que pouco ainda
-e até pelo veto-
Eu, comigo, consiga
aprender amar-te
como se ama a um neto.

segunda-feira, setembro 18, 2006

estradas

Eita estradas compridas
Eita estradas danadas
São as estradas da vida
Que tão seca e tão molhada.

Tem estrada bem velhinha
Que ta toda esburacada
Tem umas inté construindo
Pra ficar bem acabada
Que é pru povo ir dirigindo
E atropelando a boiada.

É um povo inconseqüente
Que constrói essas estradas
Que manda o povo simbora
Pra morar outras moradas.

Quando a seca ta danada
O povo do meu sertão
Sai com uma pressa do cão
E vai direto pras estradas
na mais certa contra mão
numa ilusão de sudeste
ô estrada ruim da peste!
ô estradas desgraçadas !
Egg


Sossegue
Entregue
pegue

Se segue
Não negue
nem apague
Pegue
sem que estrague

Não pague
Não Empregue
Não Esmague
Não Delegue

Não cague

ou até cague...
Mas regue
De forma que afague.

Se cegue
Carregue
da Cruz que se ergue

Não cegue
esfregue as janelas
sem que as tranque
sem que as pregue

Sem que segregue
E Se apague...
Que se apegue
sem que se apegue.


Recife, janeiro de 2005.
Cri-cri

Dorme Grilo, dorme... dorme
Que a cantiga dos grilos dá nem pra escutar
E a garagem lotada nem sabe dançar
Dorme hoje, cerveja custa dinheiro...
O sonho não
Mas pode custar pesadelo...
-eu num deixo não-
Sono custoso e pesado
Pode até abrir os olhos... Esse sono embriagado.
Que nem sei se vai distinguir
Dorme grilo, dorme...
Que a cantiga dos grilos dá nem pa ouvir.


Recife, 10 de julho de 2005.

poemal



Manso olho do mal,
atraente doce

Afiada língua do mal,
umidade quente

Sutilezas dedos do mal,
que faz mal a(os) poucos

Meio rouca voz do mal,
a cantar, e louco

Penitências corpo do mal,
se fazendo vinha

bafo, abafo, mocho, informal...
mal adivinha.

mal na espinha dorsal
Nas pontas dos dedos, Do-ín
Pergunto ao mal se ele é ruim
E o próprio responde; sim!

Erguendo a face um sorriso próprio

Em torno
tudo impróprio.

Pergunto ao mal se mal tem
E o tal
(tão tao)
não responde;
vem .

as coisas não são em total exatas...




As coisas não são em total exatas...

Me matas! Então saberei Se o rei esta lá
em trono de mármore espírito de luz
tem cabelos longos e olhos azuis

ou então me conduz para o outro lugar
de chamas e trevas vermelhas de dor
então eu verei, se lá o seu líder é um capataz
com rabos e chifres de bois nos curais

(Recife-21, jan. 2002)
A chama da vela pisca
A chama da vela encantada
Com sua dança ao vento
A chama da vela me chama
Faz-me viajar ao oriente
A chama da vela agora apagada
Ao acender-se a fluorescente
A chama da vela dança
Entre os dedos salivados
De uma moça impaciente.

(Recife, 17, fev.2002)
Caixote de madeira
Bem na cabeceira dos meus sonhos
Guardado á léguas de banhos
Meus sonhos empoeirados...
Meus livros empoeirados...
De cegos sentimentos raros.

Caixote de madeira
Servindo de tamborete
Não tem o prestigio das redes
Nem o conforto das camas
Feito de prego e madeira
Feito de suor e mãos

Caixote de madeira
Parece que estais ali
Cada pedaço do mundo
Sem precisar os segundos
A cada acento do dia.



Recife , maio - 2003
‘‘007, O amanhã nunca morre’’... Nasce?

Mas se ontem a rua estava cheia de gente
A fumaça arrudiou os olhares
Se ontem a rua estava cheia de carros
As pessoas da rua não tinham pés de meia
E se ontem a rua estava como hoje, com tantos mendigos,
Todos só viam suas bolsas e relógios.
E se antes os relógios serviam pra dar as horas,
Depois do roubo dão o prato de feijão
Feijão dá força ao povo,...
Mas se ontem foi nas horas que ‘‘passaram a mão’’
Não vamos andar a pé
Pois os segundos seguidos são livres e ligeiros.
Não temos passagem de ônibus
Mas já a temos na policia ...
Vamos arrombar carros, que são livres e ligeiros
Talvez um dia se chegue no amanhã.



(Recife-18/11/2002)

uma dança dramática.


Foi não ter a alma
Pra subir aos céus
Foi não crer no céu
E crescer sem mar
Foi não ter a língua
Pra cantar o grito
Foi não ter razões
Para poder chorar

Foi transpor as preces
Foi me arrepender
Foi ranger os dentes
Foi o não comer

E somente parar de cantar
Já foi um grande sintoma
Não foi a pior doença
Mas foi a mais dolorosa
Não ter amado a saudade
Comer sem cheirar a rosa


(São Paulo, 13 de janeiro-2003)

juninazinha

ESTRELAS...


Na janela, um horizonte
No horizonte, um verde
Um amarelo, um azul
E não era a bandeira não
Nem a camisa da seleção!...
Era o sertão;
cheio de vida
sem seca, sem dores
muita pamonha, canjica
milho “a bambão”
muita fogueira e muito coração
batendo feito zabumba
e um céu entupido de estrelas
Enfeitava a noite já espremida d’água.

Nós na fogueira
Brincando de fazer estrela também
Girando, girando... até apagar.

-Corre menino, que a noite é fria
Corre menino, lá vem o dia
Vai “timbora” te agasalhar.

-Pula menino, a fogueira é quente
“Sorta” menino, isso é água ardente
Tu “quéis” beber cana pra te embriagar.

ô chuva memória

Ô chuva cai de vagar
Pois saudade eu sinto
Da chuva de meu lugar
E quando lembro de lá
Da vontade de voltar.

Porque lá quando chovia
Correndo pru mei da rua
Festejar eu logo ia.
Naquelas chuvas de vento
Sibita doida no tempo
Batendo em cada portão
Pra chamar toda cambada
Beber chuva esparramada
Das janelas do sertão.

Céu bunito pra chover!
Pru meu açude sangrar
Antes que a chuva acabasse
Deus parasse de chorar,

com os labios roxos de frio
Nas bicas bocas de jacaré
Da casa paroquial
Ali do lado da usina
No tempo de eu menina
No dito berço imortal.


(Recife, 2001)

segunda-feira, agosto 21, 2006

oração do pau nosso



figura tingida de três
taguara tapuia tupinambá
togo tunisia tanzânnia
tingidos tirados, trazidos de lá

formiga nova terra nova
nave navega triangular
tratar de tornar vertical
cidade tão cêdo espelhar

quem é esse novo que nasce
pelado melado entre as pernas tão pretas
parece que foi comteplado
quem é essa nova careta

marmelo mangaba muringa
marisco miçanga e maringá
muriçoca manga moenda
macumba mandinga maracujá

quem é essa peste atrevida
que vem se atrever a ser nós
...............................................................................
(poema contruído durante a primeira disciplina que fiz com o prof. renato athias, 2005)

sexta-feira, abril 28, 2006

pr'um sentimento bonito

palha a palha, construiu-se o ninho
o amanhã acordado sem termos durmido
sonhando à manhã o algo vivido
da coisa humana feita de carinho

querer que crescendo não se viu sozinho
e por óleo de semente encontrou-se ungido
que é belo, e não devia querer-se oprimido
e nem trair-se, desviar caminho

que o que acontece assim, tão gracioso
de simples, carrega o grandioso
por ser do bicho, e ser tão natural

que a gente encare de uma forma amena
sem punições e abordando o tema
nessa verdade de SER animal.

terça-feira, janeiro 10, 2006

augusto dias




Seu Augusto, Augusto grande...
Que a poesia não retem-se à gola
Seu Augusto não coube em angola
Seu Augusto, quando olhou pra mim, de gesto sorriu...
E seu sorriso, de grande, não cabe num só Brasil...
Ele, um dia, falando de lugar, e da falta do seu lugar... Corrigiu-se...
- Nem Brasil nem Angola... Seu lugar era o mundo!
Mas penso eu, que o lugar mesmo,
Aquele de saudade, de infância, juventude e mãe; era mesmo a velha Angola... Das poesias publicadas em jornal, semanal, freqüentes...
E da mãe que a todas guardava, com orgulho natural de mãe...
Mãe de memória...
Talvez agora estejam juntos novamente
Talvez estejam juntos agora...
Ou Quem sabe da aurora, ele já ande amanhecendo em outro canto poraí, outro lugar, com outra mãe, outra cultura, reencarnando... Enfim... Não sei
Talvez inda esteja por aqui... Acompanhando...
A filha, a neta, seu amigo Tadeu... talvez
Sem o impedimento do corpo.
Rua da aurora
Foi nessa que o conheci
E já foi amor, o vi pela primeira vez no elevador...
Edifício... Difícil pra nos lidar com esses mistérios, com o que a gente não conhece...
Mas o que acontece, é que seu Augusto amava a vida, o amar, as pessoas...
Fiquei encantada, querendo ouvir, ver escrito...
Olhar no olho as paisagens de África
Sentir o soar dos ecos de Angola
Tudo isso seu Augusto tinha
Citando a mim os nomes dos poetas de sua terra, que ele há de ter tido o prazer em ter conhecido, contemporâneos... De idade, amizade... Amigos seus...
E eu citando os meus, do meu sertão de raiz e saudades, contemporâneos dos meus avós.
Era um poeta de métrica, mas não há métrica que o caiba.
Queria ainda rever seu alem mar
Tinha projetos, alunos, amor, e aqui, já foi além e transcender...
Tu, Seu Augusto Dias, não podias morrer!
Cabia ficar mais... Atravessar o mar.
Por que agora atravessar o véu? Que susto!
Será que o céu haverá de caber seu augusto?


(Recife, 12 de dezembro de 2005).

terça-feira, julho 19, 2005

não sei se medo

naquele dia ela acordou cêdo de durmir tarde
sentia algo, não sei se medo
tiraram-lhe oitocentas ou setecentas gotas de sangue
de sua veia sem nome, de seu braço esquerdo.
ela ainda, pra ser educada,
tentou fingir que não houvera nada
e até sorriu por alguns segundos
mas não segurou- se ao segundo seguinte
e tombou no chão sem mais ter requinte
naquele instante, revirou os olhos e tencionou a carne
fugindo aos sentidos. não tinha charme.
setiria algo?
suada... e sem mente, do leve desmaio forte,
levantou-se, a gente, e na sua sorte

havia o proximo, próximo, tronco humano para acolhe-la
e ela de olhos abertos do coração que já se sente
bate em samba enredo...
e depois de tudo, falou calado
tonto de segredo...

poema pra quando caio

pra que se deixe claro
esse poema é egoísta...
e só inporta por assim dizer,
o que nele há de humano e solidário a mim...
e só, pra mim, importa
porque pra mim, agora, São Paulo importa mais...
pois depois que caio, e choro, quando a vista desmbaça...
consigo ver melhor;
no ato cotidiano de olhar o outro
e nesse enxergar salgado ser mais feliz com os gostos doces,
os sabores doces sutís.
e perceber a alegria de comer conjunto doce em demasía.
como ritual.
ter menos culpa e mais calma
assim... depois de passados os momentos de inferioridade
depois da paixão o amor.
pois um dia faz valer... acrescenta um ano.

agenda

hoje penso diferente de dez dias atrás
hoje tenho dez dias à mais...
já não concordo mais
com aqueles versos que escrevi
mas não os apago, trago a lição
daquela ocasião
e aplico nesta
e se a vida me contesta
mais dez dias penso que virão
não os espero...
os sinto e sobretudo vivo
comendo pão... e rabiscando agenda.

teu santo nome

eu não vou citar teu nome
pra não te ver vaidosa
pois não pagas minha glosa
e eu não vou morrer de fome
parente de alcapone
és vilã nesse cinema
que não te reste um poema
vai embora, sai de perto
o portão está aberto
não te quero como tema.

FLOEMA

(à minha irmanzinha maria clara ferreira galvão).

a flor da minha vida
é monocotiledônea
cheia de amido seu
tem cheirinho de comida
essa flor que deus me deu
me abraça me faz carinho
e ainda fala baixinho
enchendo os ouvidos meus

a flor que me acorda cedo
adora pão integral
e seu gostinho salgado
é da manteiga de gado
que tem um pouco de sal

minininha flor do meu fado
vem correndo tal qual um rio
flô do bra...zil ... flô do abaca...xi

tua raíz espalhada
é uma sínha de renda
e as palavrinhas erradas
servem pra mim de merenda

minha florzinha do vaso
minha amiguinha meu caso
minha florzinha de cores
qu'inda há de crescer muito
com seus vasos condutores.
*Anaíra Mahin -São Paulo, 2004

segunda-feira, julho 18, 2005

canto mudo

Teu desprezo repartia o inteiro
Eu em reza pedia teu cheiro
Tu distante me olhava e ria
Eu em tom de te sentir mais perto
Não enxergava teu peito aberto
Louco pensar que inda me atraía.

Mas, alimento essa situação,
Reengolindo o coração da mão
Sendo meu pão essa paixão macia
Que mesmo perto estando distante
Ainda espero que esse samba cante
E mate a coisa que nos distancia.

Amor perdoa a imaturidade,
É que eu sinto tanta da saudade
Que até me calo, fico com vergonha,
E remoendo esse canto mudo
Penso que tu devias ouvir tudo
E se ganhando, mais a gente ganha.

versos assim

Quero dizer-te mais puro
A minha viva verdade
Que submersa em saudade
Vem sufocada na dor
Talvez se eu soubesse a cor
Dessa dor que gosto dela
Trabalhasse com aquarela
Sem querer ser escritor.

Mas como não sei ao certo
Se vens fechado ou aberto
Eu guardo dentro de mim
Um sentimento incolor
E pensando ser amor
Escrevo versos assim.

colo

Se olho até sinto o gosto
Das expressões do teu rosto
Quando estou perto de ti
E sinto cada detalhe
De tua alma o entalhe
No mistério que sorri.

Eu sinto que a calma tua
Tal qual a calma da rua
Devem pender no meu colo
Com a poesia brejeira
As cinzas de quarta-feira
Como as raízes do solo.

das coisas

Hoje ainda, antes de um sono inquieto,
Interroguei as nuvens do presente terno
Que externas pareciam entender o interno
Abrindo aos olhos, em alvo céu de teto.

fomos cruzes subindo o despertar da ladeira
Cruzando-se em carinhos; inversões de inverno.
Num céu que anda aos pés do pai eterno
Pena, sem chaves de uma usina de caldeiras.

E saímos, sem cruzamento fixo, na dobra da esquina,
Postos às diferenças restantes, menino-menina.
Nosso andar foi repartido, cada-cada, ruas tortas.

E os botões de cada casa descosendo um a um
Naquele dia que escancarava a larga boca de jejum
E retraia a madrugada, abrindo as portas.

fábula

Ontem vi dois passarinhos
Bem-te-vi e beija flor
Um cantando, outro beijando
Falando a língua do amor

Um sobrevoava a rosa
O outro na bananeira
Com sua voz mais formosa
Cantava a manhã inteira

Quando o beija-flor ouviu
A cantiga tão suave
Dizendo-lhe: bem-te-vi
Foi voando feito uma nave

Saiu numa pressa tão grande
Mais foi triste o seu caminho
(que do jeito que ele ia)
Seu bico tornou-se flecha
No peito do passarinho

E ao sentir o que fizera
Beija-flor enlouquecido
Na manhã de primavera
Bem-te-vi tinha morrido

E se m ver mais solução
Pra sua tamanha dor
Adeitou-se no seu ninho
E morreu do mal de amor.

algarobas

Meu amigo onde está teu sangue azul
Santa cruz te ilude a alva pele
O que manchas talvez também te mele
Não me ofenda ofendendo o pajeú
É mais belo dizer: tome no cu
Como um sábio ditado em chinês
Sendo a planta a respiração da tez
Quem destrói não é muito inteligente
Cai um pé de algaroba inocente
Sobre os pés da brutal estupidez.

Essa planta parente de bombril
Pois que tem mil e uma ultilidades
Vem comendo o pão que amassou hades
Alcançou essa terra de estiu
Africana trazida pru brasil
Que agora já fala matutez
Faz lembrar a revolta dos malês
Que ouvi duma negra resistente
Cai um pé de algaroba inocente
Sobre os pés da brutal estupidez.

Cai um pé de algaroba inocente
E eu volto a questão da realeza
Recordando uma história de tristeza
E trazendo a lição para o presente
Uma história passada no oriente
Que falava espanhol cum portuquês
Coroaram já tarde a bela Inês
Mas que hoje se encontrem novas porta
Que não mais caia essa sombra morta
Sob os pés da brutal estupidez.

Nessa terra de angico e baraúna
De juá, barriguda e mulungú
Vem o homem que arranca e deixa nu
Caatinga pra ver se vira duna
Rogo, peço pra são bento do una
Pois são zé abalou-se de repente
Não enxerga um palmo a sua frente
E o dinheiro é que elege novos reis
Sobre os pés da brutal estupidez
Mais um pé de algaroba inocente.

Vem as leis naturais, o tsuname
E as leis imorais, desmatamentos
Enfrentar a força dos elementos
Faz o homem passar muito vexame
Ele próprio cultiva seu desmame
Mata mãe e irmãos, faz suas leis
Não percebe tamanha insensatez
E às vezes até se diz um crente
Cai um pé de algaroba inocente
Sobre os pés da brutal estupidez.